Exemplo e descaso: o Brasil dos extremos começa na escola

6/02/2018

Por Izabela Murici, sócia da FALCONI

Ainda que seja consensual a opinião sobre a necessidade de melhorar a qualidade da educação brasileira, há alguns motivos de orgulho quando se compara o Brasil com outros países. Poucas nações são capazes de realizar uma iniciativa como o Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, realizado mês passado em mais de 12 mil locais de prova Brasil a fora para 6,7 milhões de inscritos, número maior do que a população da Irlanda. O exame é a segunda maior prova de acesso ao ensino superior no mundo. Só perde para o chinês Gaokao, que no ano passado teve a participação de 9,4 milhões de estudantes. Fato: o Brasil consegue realizar uma avaliação de tamanha magnitude, ano a ano aprimorada e usada como referência para provas de outros países.

Se é verdade que os números superlativos do Enem 2017 atestam a capacidade de mobilização e organização do Ministério da Educação (MEC), ainda temos problemas graves de qualidade e permanência, ou evasão escolar no Ensino Médio.

O estudo “Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens” liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros e disponível online aponta que 1 em cada 4 jovens de 15 a 17 anos não frequenta o Ensino Médio. São mais de 2,8 milhões de jovens fora da escola antes da hora. O estudo calculou o passivo gerado ao país por este abandono em mais de R$ 100 bilhões. País nenhum pode se dar ao luxo de desperdiçar tamanha capacidade intelectual e comprometer o futuro de tantas pessoas.

O desinteresse pela escola não é novidade. O Brasil sofre com evasão há décadas. No início dos anos 1990 quase metade dos jovens de 15 a 17 anos não frequentava o Ensino Médio. Este percentual caiu vertiginosamente até a virada do milênio quando chegou a 25% e vem perdendo ritmo desde então. Hoje, estamos apenas três pontos percentuais abaixo, com 22% dos jovens fora dos anos finais.

Ilhas de excelência

Como é de se esperar na educação brasileira, algumas regiões do país fogem ao padrão nacional e apresentam número que o Brasil pretende atingir décadas à frente. São as chamadas ilhas de excelência que destoam do restante do país e atingem resultados de nações desenvolvidas. No combate à evasão do Ensino Médio, o caso de Pernambuco mostra que planejamento e perenidade para vencer o problema são essenciais. Em 2007, o estado tinha a segunda pior colocação no ranking nacional, com taxa de abandono que chegava a 24%. Hoje está em 1,7%, a menor do país.

Não existe um motivo único para justificar o desinteresse pela sala de aula. Há causas econômicas, pedagógicas e sociais que podem variar de antigos problemas, como a dificuldade de transporte até a escola, gravidez na adolescência e envolvimento com pequenas atividades ilegais, como tráfico e roubo, até questões mais abstratas relacionadas à falta de percepção sobre a importância do Ensino Médio para o futuro do próprio indivíduo. Os alunos têm novas ambições que a escola tradicional não consegue atender.

Então o que faz das escolas pernambucanas as mais atrativas do Brasil? Todas as causas que levam à evasão convergem para o valor que o aluno vislumbra com a sua permanência dentro do ambiente escolar. Vencer as dificuldades do dia a dia para conseguir frequentar as aulas só vale a pena se o tempo investido dentro da escola for realmente produtivo.

Este ponto deve ser considerado na definição e implementação desta iniciativa. A carga horária estendida com as escolas integrais só faz sentido com gestão eficiente. Deixar o aluno na escola por mais tempo sem dar continuidade ao aprendizado corre o risco de apenas aumentar despesas e o problema da evasão.

Os resultados educacionais brasileiros deveriam ser o gatilho para que os tomadores de decisão trabalhem de forma efetiva o problema (abandono) e suas causas. Sabemos o que gera resultado: gestão eficiente, do planejamento à execução, com metas claras, um plano de ação exequível, sem aventuras ou pirotecnia. Em um país de contrastes, democratizar o básico já garantiria uma revolução na educação.