A cada início de ano o varejo mundial volta seus olhos para Nova York, nos Estados Unidos, onde a NRF Retail’s Big Show, o maior evento global do setor, se consolida como um espaço privilegiado de reflexão sobre tendências, desafios e caminhos para o futuro. Em 2026, o evento reforça esse papel ao propor um tema tão direto quanto provocador: “The Next Now”, ou seja, o futuro já começou e ele acontece agora.
Mais do que um slogan, o conceito traz uma mensagem objetiva de que não há mais espaço para esperar que as transformações amadureçam. Elas já estão em curso e impactam, simultaneamente, modelos de negócio, operações, relações com clientes e a forma como as empresas competem.
O que emerge dos debates e painéis do evento é a constatação de que o varejo vive um momento de aceleração contínua. Tecnologias, novos hábitos de consumo e expectativas cada vez mais elevadas dos clientes estão redesenhando o setor em tempo real. Ter um comportamento menos ativo e apenas observar tendências deixou de ser suficiente. Decidir, priorizar e agir agora tornou-se uma exigência do mercado.
Esse movimento reforça uma convicção importante de que estratégia só se torna relevante quando se traduz em decisões claras, prioridades bem definidas e capacidade consistente de execução. Não por acaso, a NRF 2026 dedica grande espaço às discussões sobre inteligência artificial (IA), automação, dados e novas soluções digitais. O foco deixa de ser o potencial da tecnologia e passa a ser o impacto concreto que ela gera no negócio.
A inteligência artificial (IA), em especial, já não ocupa o papel de promessa futura. Esse movimento, que o evento denomina como “AI First”, reflete sua consolidação como parte da infraestrutura do varejo, deixando de apenas analisar dados para apoiar decisões em tempo real, antecipar demandas, personalizar experiências e aumentar a eficiência operacional. Ainda assim, o desafio central permanece: o valor da IA não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é integrada à gestão.
Outro ponto recorrente nas discussões da NRF é a evolução da experiência do cliente, abordado por executivos como Marc Iannotta e Cailin Broccoli, vice-presidentes das varejistas Veronica Beard e NewStore, respectivamente. A fragmentação entre canais perde sentido à medida que o consumidor passa a esperar jornadas fluidas, personalizadas e consistentes. Entregar essa experiência, no entanto, vai muito além de marketing ou tecnologia. Exige organizações integradas, com processos, dados e pessoas alinhados em torno de um objetivo comum.
As transformações abordadas também evidenciam o papel central da operação. Cadeias de suprimento resilientes, estoques inteligentes, logística eficiente e respostas rápidas ao mercado deixaram de ser apenas temas operacionais e tornaram-se fatores estratégicos. Em um varejo cada vez mais dinâmico, a execução é o ponto de encontro entre promessa e entrega.
Ao mesmo tempo, as discussões globais reforçam que a tecnologia não elimina o fator pessoal, pelo contrário. Confiança, ética, transparência e humanidade aparecem como pilares essenciais em um varejo cada vez mais orientado por dados e algoritmos. A tecnologia amplia capacidades, mas são as pessoas e as lideranças que garantem direção, coerência e sustentabilidade às transformações.
Fica claro que a transformação do varejo é, antes de tudo, um desafio de liderança. Organizações só conseguem se adaptar quando suas lideranças são capazes de alinhar visão, engajar pessoas e sustentar mudanças ao longo do tempo. Culturas orientadas a resultado, com foco em aprendizado contínuo e responsabilidade pela execução, são determinantes para transformar boas ideias em desempenho superior.
O “Next Now” só se concretiza quando visão, gestão e execução caminham juntas. O futuro não se constrói apenas com tendências, mas com disciplina, foco e capacidade de entregar resultados de forma consistente. No varejo, assim como em qualquer setor, não vence quem prevê melhor o futuro, mas quem age melhor no presente.
*Por Andre Paranhos, vice-presidente da Falconi