jan . 2026 .

O desafio de reduzir emissões sem perder competitividade na indústria

A escolha inteligente do mix energético, a eficiência operacional e a implantação de projetos de capital com governança eficaz são o tripé para a transição energética eficaz na indústria de base

André Chaves*

O desafio de reduzir emissões sem perder competitividade na indústria



A energia deixou de ser apenas um item de custo na indústria brasileira. Ela tornou-se também uma variável estratégica de competitividade. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no Balanço Energético Nacional (BEN) 2024, os setores de transporte e indústria, juntos, responderam por 64,8% do consumo energético nacional, o que mostra que a transição energética não é opcional. 

Nesse contexto, três estratégias emergem para a descarbonização sem perda de margem: melhor mix energético, maior eficiência operacional e projetos de capital. 

O Brasil conta com algumas vantagens estruturais. Na indústria, a participação de fontes renováveis chegou a 64,4% do consumo em 2024. Expandir essa proporção por meio da geração própria ou de contratos de longo prazo reduz a exposição a combustíveis fósseis, à volatilidade cambial e aos preços internacionais. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 2024, 48% das indústrias já investiram em fontes limpas, e 42% delas avaliam a autoprodução. 

A despeito disso, o consumo industrial ainda apresenta desperdícios. O relatório “Roadmap de Ações de Eficiência Energética”, também da EPE, reforça que eliminar perdas em motores, compressores, bombas e sistemas de cogeração pode gerar reduções expressivas de consumo. A adoção de sistemas de gestão de energia, a recuperação de calor residual, a automação de utilidades e o monitoramento em tempo real são outros exemplos de ações que podem ser executadas para esse fim. 

Em muitos casos, dada a escala das mudanças necessárias, a solução está em grandes projetos de capital. Retrofit de utilidades, cogeração, instalação solar ou eólica, redes de calor industrial e armazenamento de energia entram nessa conta. 

Segundo a Bloomberg, o Brasil já atraiu US$ 37 bilhões em investimentos diretos em transição energética. Apesar do fluxo relevante, entraves regulatórios continuam sendo um fator de atenção. Portanto, a articulação entre a estratégia industrial, fontes de investimento, controle da execução do CAPEX e uma governança robusta torna-se essencial. 

Para progredir nessa agenda, é preciso seguir alguns passos: 

a) Diagnóstico:análise detalhada do consumo (elétrico e térmico), mapeamento de utilidades (vapor, compressão, bombas), uso debenchmarks e identificação de “hot spots” para priorizar oportunidades. 

b) Precificação de alternativas:calcular o custo atual (tarifas, combustíveis, manutenção), estimar o custo das alternativas (ex.: biomassa) e comparar.

c) Avaliar investimentos:priorizar iniciativas de elevado impacto no curto prazo (troca de motores), combinar com projetos de médio prazo (solar,biomassa, etc.), fazer modelagem financeira e projetar ganhos de performance. 

d) Montar um plano geral:listar todas as iniciativas viáveis, definir prazos factíveis e nomear responsáveis.

e) Fazer governança:incluir KPIs específicos relativos ao uso eficiente das fontes de energia nas metas dos executivos e responsáveis diretos pelas operações; estabelecer controles que permitam o monitoramento dos resultados e do progresso das ações; e implantar rituais de gestão para avaliar a execução.

Na transição energética das indústrias brasileiras, há um tripé claro: a escolha inteligente do mix energético, a eficiência operacional e a implantação de projetos de capital com governança eficaz. Ou seja, o tema ganha ainda mais força pela sua relevância econômica, não apenas pelo impacto ambiental. 

*Por André Chaves, vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Indústria de Base e Bens de Capital

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