A Reforma Tributária em vigor no Brasil redefine decisões estratégicas ao promover uma transformação estrutural que, além de simplificar o sistema de arrecadação, busca alinhá-lo a práticas mais modernas. Em 2026, foi iniciada a fase de transição para a sociedade, que será concluída em 2033, e o foco inicial é a calibragem das alíquotas e testes do sistema.
A mudança afetará não apenas os encargos tributários, mas também fundamentos essenciais dos negócios, como competitividade, formação de preços, estrutura de custos e previsibilidade financeira. Portanto, trata-se de um movimento que envolve toda a gestão corporativa, e não apenas a área financeira.
Essa alteração ocorre em um contexto de forte pressão sobre margens, juros ainda elevados e maior seletividade do capital, o que reduz a margem de erro das decisões executivas e amplia o custo de escolhas mal calibradas. Diante disso, os executivos passam a adotar uma postura mais cautelosa em decisões relacionadas a investimentos, portfólio, estrutura operacional e expansão territorial.
No portal do Ministério da Fazenda, estudos apontam que a estimativa é gerar um crescimento adicional da economia de 12% a 20% em 15 anos. Além disso, a previsão é de que todos os setores da economia sejam beneficiados, mesmo em um cenário conservador e com uma alíquota padrão.
Um estudo do Thomson Reuters Institute com profissionais de departamentos tributários corporativos, divulgado em 2025, mostra que 63% dos entrevistados afirmam que suas empresas estão nos estágios iniciais de preparação, a maioria ainda estruturando bases ou acompanhando os desdobramentos. Por outro lado, 35% relatam que já avançaram e estão direcionando recursos para a transição. A pesquisa indica que muitas companhias estão priorizando soluções tecnológicas, planejamento estratégico tributário e treinamento de talentos.
A nova lógica de créditos e débitos exige uma revisão das estruturas de custos e da precificação, pois pode gerar distorções relevantes de margem entre produtos, unidades de negócio ou regiões, mesmo quando a operação aparenta eficiência sob o modelo atual. A adaptação às novas diretrizes tributárias requer uma visão clara dos impactos setoriais, a fim de prever efeitos sobre margens e resultados. Qualquer ruído nesse processo aumenta a exposição a riscos e reduz a capacidade de reação diante da volatilidade econômica.
Precificação torna-se decisão estratégica sob o novo sistema tributário
Um dos pontos mais sensíveis da Reforma Tributária é a precificação de produtos e serviços. A implantação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) altera profundamente a lógica de créditos e débitos ao longo da cadeia. Esse movimento exigirá uma revisão abrangente dos custos, critérios de alocação e políticas de preços para garantir competitividade.
Organizações intensivas em capital, como indústrias e mineradoras, precisam de uma preparação ainda mais robusta, devido às cadeias longas e operações descentralizadas geograficamente. Ineficiências na captura de créditos ou erros de precificação podem gerar impactos amplificados ao longo da operação.
A Reforma também afeta o capital de giro e o fluxo de caixa. Mudanças no timing de recolhimento e na recuperação de créditos tributários alteram a dinâmica financeira. Em um cenário de juros elevados, alongamentos no ciclo financeiro podem resultar em custos adicionais e reduzir capacidade de investimento.
Por isso, é essencial integrar as áreas fiscal, financeira e operacional. Disciplina na gestão do capital de giro, aliada a maior previsibilidade dos fluxos, será fundamental para atravessar o período de adaptação sem comprometer projetos estratégicos ou decisões de longo prazo.
Outro desafio é o fato de a regulamentação da Reforma ainda estar em construção, o que exige flexibilidade, agilidade e adaptabilidade nas projeções, governança decisória robusta e envolvimento direto da alta liderança. Decisões baseadas em premissas rígidas podem rapidamente se tornar obsoletas.
Reforma Tributária e competitividade em médio e longo prazos
Um dos principais impactos de médio e longo prazos está na competitividade. A busca por maior neutralidade tributária, simplificação e previsibilidade é central para inserir o país de forma mais eficiente em cadeias globais de valor. A eventual consolidação de acordos comerciais, como entre União Europeia e Mercosul, tende a ampliar esse efeito, ao expor as empresas brasileiras a uma competição mais intensa.
Contudo, esse cenário exige alta eficiência operacional e clareza regulatória, apoiadas por capacidades como gestão integrada de custos, governança de decisões estratégicas, uso consistente de indicadores econômicos e disciplina na execução. Isso inclui operar com custos mais transparentes, preços consistentes e menor incerteza jurídica. Trata-se de um verdadeiro teste de maturidade da gestão empresarial no Brasil, que demanda respostas estruturadas e não soluções pontuais. Está em jogo o futuro e a sustentabilidade do negócio.
A Reforma Tributária também representa uma oportunidade para elevar a maturidade gerencial das companhias, com revisão de modelos de gestão, estruturas de custo e processos decisórios, enquanto a inação tende a ampliar riscos financeiros, operacionais e estratégicos ao longo da transição. Encarar como uma transformação estrutural, e não apenas fiscal, permitirá às empresas enfrentar desafios e capturar oportunidades de forma mais efetiva.
*André Chaves é vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Indústria de Base e Bens de Capital