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Educação nos estados: prioridades para os primeiros 100 dias

Os primeiros meses de governo são decisivos para estabelecer prioridades e criar as condições necessárias para que as políticas educacionais produzam resultados

Izabela Murici*

Educação nos estados: prioridades para os primeiros 100 dias


Os novos governos estaduais assumem em janeiro de 2027 diante de um desafio importante na educação nos estados da rede pública brasileira. No Ensino Médio, etapa sob responsabilidade quase exclusiva dos estados, nenhuma unidade da federação atingiu a meta do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) em 2025. 

Embora as redes estaduais tenham superado a meta nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (6,4 frente à meta de 6,1), os resultados ficam abaixo do esperado nos Anos Finais (5,1 frente a 5,3) e, principalmente, no Ensino Médio (4,3 frente a 4,9). Esses números mostram que as dificuldades de aprendizagem se acumulam ao longo da trajetória escolar e se tornam ainda mais evidentes na última etapa da educação básica.  

Outro dado merece atenção: entre 2022 e 2025, a reprovação no Ensino Médio público caiu 62%, enquanto o abandono escolar diminuiu 61%. São avanços importantes, mas que não foram acompanhados pela aprendizagem na mesma proporção. 

Atualmente, apenas 8,5% dos estudantes brasileiros concluem o Ensino Médio com aprendizagem adequada em Matemática. Mesmo nos estados com os melhores resultados, esse percentual não ultrapassa 14%. Além disso, em 12 das 27 redes estaduais, mesmo que todos os estudantes fossem aprovados, o impacto no Ideb seria de, no máximo, dois décimos.  

Isso significa que melhorar os indicadores de aprovação, embora necessário, já não é suficiente. O principal desafio dos próximos anos será garantir que os estudantes efetivamente aprendam.  

Há, entretanto, experiências que mostram que é possível mudar essa realidade. Em 2009, 11 estados apresentavam Ideb igual ou inferior a 3,0 no Ensino Médio. Hoje, o Piauí alcança 4,9, enquanto Amapá e Rio de Janeiro registram 3,7. Os resultados mostram que o ponto de partida não determina, necessariamente, onde uma rede pode chegar.  

Ao analisar o desempenho dos estados, considerando tanto a aprendizagem quanto os indicadores de aprovação e permanência, encontramos realidades bastante diferentes. Algumas redes apresentam bons resultados nas duas dimensões, enquanto outras avançaram mais em apenas uma delas. Em quase metade dos estados, os resultados ainda estão na média nacional ou abaixo dela em ambas.  

Essa diversidade exige estratégias diferentes. Não existe uma solução única para todas as redes estaduais, mas há prioridades que precisam estar presentes na agenda dos novos governos.  

A primeira delas é fortalecer a gestão educacional com foco na aprendizagem. Isso significa estabelecer metas claras, acompanhar os resultados das escolas e utilizar as informações para orientar decisões. Os indicadores de aprovação e permanência continuam importantes, mas não podem substituir a avaliação do que os estudantes realmente estão aprendendo.  

Outra prioridade é enfrentar as dificuldades de aprendizagem desde os primeiros anos escolares, em parceria com os municípios. O Brasil alcançou 66% de crianças alfabetizadas na rede pública, mas ainda apresenta diferenças expressivas entre os estados, com resultados que variam de 48% a 84%. A colaboração entre estados e municípios é fundamental para reduzir essas desigualdades e evitar que as dificuldades se acumulem ao longo da vida escolar.  

A Matemática merece atenção especial. Os dados mostram uma queda preocupante na proporção de estudantes com aprendizagem adequada: de 43,5% no 5º ano para 16,5% no 9º ano e apenas 5,2% ao final do Ensino Médio. Isso reforça a necessidade de intervenções pedagógicas consistentes, especialmente nos momentos de transição entre as etapas de ensino.  

Também é necessário olhar para a organização da oferta educacional. A expansão do tempo integral e da educação profissional e tecnológica representa uma oportunidade importante, especialmente diante das metas previstas no novo Plano Nacional de Educação e da possibilidade de utilização de recursos do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Em 22 estados, esses recursos são estimados entre R$ 6,5 bilhões e R$ 8 bilhões anuais.  

Mas ampliar a oferta, por si só, não garante melhores resultados. É preciso assegurar qualidade pedagógica, infraestrutura adequada, professores preparados e uma proposta educacional conectada às necessidades dos estudantes.  

Além disso, a valorização e a gestão dos profissionais da educação também precisam ocupar lugar central. As diferenças entre os planos de carreira estaduais são expressivas, com crescimento salarial que varia de 2,1% a 160%, segundo o Movimento Profissão Docente. Entretanto, os dados não mostram uma relação direta entre essa progressão e os resultados do Ideb. Mais do que discutir remuneração isoladamente, é necessário avançar na formação, na alocação adequada dos professores e nas condições para o exercício da docência.  

Educação nos estados: o que fazer nos primeiros 100 dias?  

Os primeiros meses de governo são decisivos para estabelecer prioridades e criar as condições necessárias para que as políticas educacionais produzam resultados ao longo dos quatro anos de gestão.  

É importante reconhecer que não será possível transformar os indicadores de aprendizagem em apenas 100 dias. Entretanto, esse período é suficiente para organizar a rede, identificar os principais problemas e iniciar mudanças que terão impacto nos anos seguintes.  

Na minha avaliação, os novos governos deveriam concentrar seus esforços em quatro eixos.  

  1. Definir prioridades e estabelecer metas de aprendizagem 

O primeiro passo é compreender a situação real da rede e estabelecer onde se pretende chegar. Isso exige uma equipe técnica qualificada, metas de aprendizagem por etapa de ensino e prioridades compatíveis com os desafios de cada estado.  

Também é o momento de definir a estratégia para expansão do tempo integral e da educação profissional, considerando a disponibilidade de recursos e a capacidade de implementação.  

  1. Conhecer a realidade de cada escola e acompanhar os resultados 

Os indicadores estaduais são importantes, mas escondem diferenças significativas entre escolas e regiões.  

É fundamental identificar onde estão as maiores dificuldades de aprendizagem, os problemas de frequência e abandono, as carências de professores e as escolas que precisam de maior apoio.  

Um diagnóstico inicial, acompanhado de indicadores simples e acessíveis aos gestores, permite direcionar melhor os recursos e as ações pedagógicas. Também é necessário analisar os critérios de aprovação, para garantir que a melhoria do fluxo escolar esteja acompanhada de aprendizagem.  

  1. Garantir as condições para que as escolas funcionem bem 

Uma política educacional só produz resultados quando chega à sala de aula.  

Isso significa começar o ano letivo com professores alocados, assegurar tempo para a recomposição das aprendizagens, apoiar as equipes escolares e fortalecer a colaboração com os municípios, especialmente na alfabetização.  

São medidas que parecem básicas, mas que fazem enorme diferença na capacidade de uma rede executar suas políticas.  

  1. Iniciar as ações prioritárias e acompanhar sua implementação 

Não é necessário esperar a conclusão de um grande planejamento para começar a agir. 

Os estados podem iniciar intervenções nas escolas com maiores dificuldades, especialmente na primeira série do Ensino Médio, etapa marcada por desafios de aprendizagem e permanência.  

Na alfabetização, o trabalho conjunto com os municípios de resultados mais baixos também deve começar desde o início da gestão.  

O importante é que essas iniciativas tenham objetivos claros, acompanhamento próximo e possibilidade de ampliação a partir dos resultados observados.  

O tempo das decisões importa  

Há um aspecto que não pode ser ignorado: o calendário escolar.  

Os novos governos assumem em janeiro e, em fevereiro, as aulas já começam. Isso significa que decisões sobre equipes, professores, prioridades pedagógicas e organização da rede precisam ser tomadas rapidamente.  

Perder os primeiros meses com indefinições pode comprometer todo o ano letivo de 2027.  

Por isso, considero que o centésimo dia de governo deve representar um primeiro momento de prestação de contas à sociedade. Não para apresentar resultados de aprendizagem que ainda não tiveram tempo de acontecer, mas para demonstrar o que foi organizado, quais problemas foram identificados, quais ações começaram e quais metas orientarão os próximos quatro anos.  

O desafio dos novos governos não será apenas melhorar os indicadores educacionais, mas garantir que essa melhoria represente, de fato, mais aprendizagem para os estudantes.  

E isso começa pelas decisões tomadas nos primeiros 100 dias.  

*Izabela Murici é diretora da unidade de negócios da Falconi especializada em Educação e Sustentabilidade


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