Redes públicas de ensino que estruturam sua gestão com base em dados, priorização e capacitação de lideranças conseguem avançar de forma mais consistente na aprendizagem dos alunos. Secretarias, gestores, diretores e professores ocupam o centro desse esforço, como devem ocupar. Sistemas educacionais melhoram quando há clareza de propósito, desenho institucional consistente e disciplina de execução.
O diferencial das redes mais eficazes está na capacidade de transformar diretrizes em execução efetiva na escola, conectando estratégia, operação e sala de aula. Na educação, esse valor se mede por acesso, permanência e qualidade. É nessa etapa que se encontra a chamada “última milha”: o momento em que diretrizes e políticas públicas precisam se converter, com consistência, em prática pedagógica e aprendizagem efetiva.
Alguns dados ajudam a dimensionar o tamanho do desafio nesses três fatores. No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), divulgado em 2023 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os resultados médios do Brasil permaneceram próximos aos de 2018 em matemática, leitura e ciências. Porém, ficaram abaixo da média da OCDE nessas mesmas áreas.
Segundo o relatório Education at a Glance 2025, da OCDE, 24% dos jovens no país entre 18 e 24 anos não estudam nem trabalham, proporção superior à média da organização, de 14%. Além disso, adultos com ensino superior no Brasil ganham, em média, 148% a mais do que aqueles com ensino médio completo, o que pode indicar alto retorno econômico da educação.
Superar esse cenário depende de escolhas claras na gestão pública. Redes que avançam de forma consistente partem da definição de poucos objetivos estratégicos, desdobrados em metas claras por rede, escola, série e disciplina, com acompanhamento periódico e responsabilização das equipes gestoras. Essa priorização reduz dispersões, orienta a atuação das equipes e permite alinhar políticas, programas e recursos a resultados concretos.
O uso de dados também é decisivo na última milha da educação. Avaliações externas e indicadores de frequência precisam ser analisados em ciclos curtos e usados para orientar intervenções pedagógicas no dia a dia. Quando bem empregados, esses dados permitem identificar lacunas de aprendizagem, ajustar práticas de ensino e acompanhar de forma contínua a evolução dos estudantes.
Outro fator importante está na alocação eficiente de recursos. O Brasil destina 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) à educação, acima da média da OCDE, de 3,6%. Ainda assim, o gasto público por aluno corresponde a cerca de um terço do observado nos países da organização, o que revela um descompasso entre volume de investimento e resultado. Redes mais eficientes direcionam recursos para ações com impacto comprovado, como alfabetização na idade certa, reforço estruturado e formação contínua de professores.
A transformação da estratégia em prática depende, ainda, de lideranças preparadas. Diretores e coordenadores pedagógicos são o elo entre a política pública e a sala de aula. Para avançar, é preciso investir na formação desses líderes, com foco em gestão por resultados, acompanhamento sistemático de indicadores e desenvolvimento docente.
Estratégia e execução precisam caminhar juntas para que o avanço aconteça. A urgência é clara, e os caminhos são conhecidos. A base para transformar diretrizes em aprendizagem está em quatro fatores: priorizar objetivos, usar dados de forma estruturada, alocar recursos com foco e desenvolver lideranças.
Sem essa disciplina, políticas bem desenhadas ficam no papel. Com estruturação, a última milha deixa de ser obstáculo e se torna um ponto de virada. No Dia Internacional da Educação, celebrado em 28 de abril, é válida a reflexão sobre o verdadeiro desafio da educação pública brasileira: como definir boas políticas, garantir que se materializem em ações nas escolas e se convertam em aprendizagem e oportunidades para crianças e jovens.
*Izabela Murici é diretora da unidade de negócios da Falconi especializada em Educação e Sustentabilidade.