Durante anos, a inteligência artificial (IA) foi vista como uma ferramenta de apoio, para analisar dados, responder perguntas e sugerir recomendações. Essa lógica, porém, está mudando rapidamente. A nova geração de sistemas, conhecida como IA agêntica, é capaz de tomar decisões e executá-las. Os agentes autônomos conseguem planejar tarefas, interagir com softwares corporativos e tomar decisões operacionais com pouca intervenção humana.
Segundo a Gartner, até o final de 2026, cerca de 40% das aplicações corporativas devem incorporar agentes de IA voltados a tarefas específicas, um salto expressivo frente a menos de 5% do momento da divulgação. Essa mudança sinaliza algo maior: o surgimento do que muitos já chamam de “o próximo funcionário digital”.
Copilotos de IA e agentes de IA têm diferenças profundas de atuação. Copilotos são essencialmente reativos e aguardam comandos humanos para executar tarefas. Já os agentes são orientados a objetivos. Recebem uma meta, desdobram em etapas, utilizam sistemas corporativos e coordenam ações até alcançar o resultado esperado.
Na prática, isso significa que tarefas como planejamento de campanhas, análise de riscos ou gestão de tickets de atendimento podem ser conduzidas por um conjunto de agentes de IA que trabalham de forma autônoma, conectados a dados e aplicações empresariais.
Como as empresas usam agentes de IA
Grandes empresas já começam a testar essa lógica em escala. A FedEx, por exemplo, está estruturando uma arquitetura baseada em múltiplos agentes para apoiar atividades como planejamento logístico, marketing e operações aduaneiras, integrando centenas de casos de uso dentro da organização.
A estratégia envolve diferentes tipos de agentes, responsáveis por executar tarefas, supervisionar resultados e auditar decisões, criando um ecossistema digital capaz de ampliar significativamente a produtividade da companhia.
Esse movimento ilustra um novo paradigma: não se trata mais apenas de automatizar processos isolados, mas de criar forças de trabalho híbridas, nas quais humanos e agentes digitais atuam de forma complementar.
Esse avanço também é impulsionado pelo ecossistema tecnológico. Empresas como Salesforce já lançaram plataformas voltadas para orquestrar agentes em atividades de atendimento ao cliente, em que projetos iniciais conseguem resolver entre 40% e 60% das solicitações sem intervenção humana. Ao mesmo tempo, gigantes da infraestrutura como Nvidia desenvolvem plataformas abertas para criação de agentes corporativos, acelerando a adoção dessa nova arquitetura de software.
A corrida não é apenas tecnológica, mas estratégica. As empresas que estruturarem melhor esse novo modelo operacional ganharão uma escala de produtividade inédita.
Desafios dos agentes de IA
A adoção de agentes traz desafios relevantes. Quanto maior a autonomia desses sistemas, maior a necessidade de governança, monitoramento e controle. Não por acaso, empresas de tecnologia já trabalham em plataformas específicas para gerenciar identidades, permissões e comportamentos de agentes dentro das organizações, tratando-os quase como novos colaboradores digitais.
A gestão desses sistemas exige novas disciplinas que combinam governança de dados, segurança e acompanhamento contínuo de decisões automatizadas. O avanço sugere que estamos entrando em uma nova fase da transformação digital.
Durante a última década, a automação empresarial evoluiu de scripts simples para robôs de processo e, mais recentemente, para sistemas baseados em IA generativa. Agora, o próximo passo parece ser a criação de organizações parcialmente operadas por agentes autônomos, capazes de executar fluxos inteiros de trabalho de ponta a ponta.
Para as lideranças empresariais, a pergunta estratégica deixa de ser apenas “como usar IA para aumentar produtividade”. O foco passa a ser como redesenhar a organização para ter uma força de trabalho híbrida, na qual pessoas e agentes digitais colaboram continuamente. Nos próximos anos, as empresas que responderem primeiro a essa pergunta não apenas adotarão uma nova tecnologia, mas construirão um novo modelo de operação.
Talvez a verdadeira revolução da inteligência artificial seja corrigir o que a revolução industrial fez com a maioria das pessoas: que elas “virassem máquinas” atuando em diversas execuções operacionais. Agora, os agentes ocupam esse papel e as pessoas poderão voltar a ser humanos atuando em novas oportunidades que ainda estão por vir.
*Breno Barros é CTO e vice-presidente de Soluções Digitais da Falconi.