Sempre ouvimos que a inteligência artificial aumentará drasticamente a produtividade das empresas. Mas existe uma pergunta que não costuma aparecer nessa discussão. “O que acontece quando todas as empresas ficam mais produtivas ao mesmo tempo?”. A resposta pode ser menos intuitiva do que parece. Assim como a inflação reduz o poder de compra do dinheiro, uma “inflação de produtividade” pode reduzir o valor competitivo dos ganhos individuais.
O que acontece quando todo mundo fica mais produtivo ao mesmo tempo
Imagine que uma empresa consiga desenvolver software duas vezes mais rápido graças à IA. Se seus concorrentes fizerem exatamente o mesmo, a vantagem desaparece. O mercado simplesmente passa a esperar entregas duas vezes mais rápidas. O que antes era um diferencial transforma-se em requisito básico. O ganho continua existindo, mas deixa de gerar vantagem competitiva. Apenas redefine a linha de base da competição.
Lições da história: da planilha eletrônica à inteligência artificial
Esse fenômeno já aconteceu diversas vezes na história. Planilhas eletrônicas, e-mail, ERP, computação na nuvem e smartphones aumentaram significativamente a produtividade. Nenhuma dessas tecnologias garante hoje uma posição privilegiada no mercado. Elas se tornaram infraestrutura. Empresas que não as utilizam ficam para trás, mas empresas que as utilizam também não ficam automaticamente à frente.
Por que a pressão por desempenho cresce junto com a produtividade
A inteligência artificial parece caminhar na mesma direção. A facilidade para gerar código, documentos, análises e apresentações aumenta a velocidade de execução de praticamente todos os participantes do mercado. O problema é que clientes, investidores e acionistas também ajustam rapidamente suas expectativas. Se antes um projeto demorava seis meses, em pouco tempo todos passarão a esperar que ele seja concluído em três. A produtividade aumenta, mas a pressão por desempenho cresce na mesma velocidade.
Por que muitas empresas não capturam retornos extraordinários com IA
Isso ajuda a explicar por que muitas organizações ainda têm dificuldade em capturar retornos extraordinários com IA. Elas estão produzindo mais, mas seus concorrentes também. O benefício individual é parcialmente neutralizado pelo movimento coletivo. O verdadeiro diferencial deixa de ser produzir mais rápido e passa a ser decidir melhor onde essa produtividade adicional será aplicada para criar valor que não possa ser facilmente copiado.
O verdadeiro diferencial competitivo na era da inteligência artificial
Talvez a principal contribuição da IA não seja criar empresas permanentemente mais produtivas do que as demais. Seja elevar o padrão de produtividade de toda a economia. Quando isso acontecer, a competição voltará ao lugar onde sempre esteve:
estratégia, execução, conhecimento do cliente e capacidade de construir modelos de negócio superiores. A IA muda a velocidade do jogo. Mas continua sendo a qualidade das decisões que determina quem vence.
*Breno Barros é CTO e vice-presidente de Soluções Digitais da Falconi
Principais dúvidas das altas lideranças sobre produtividade e inteligência artificial
Por que a inteligência artificial não garante vantagem competitiva sozinha?
Quando todos os concorrentes adotam a mesma tecnologia, o ganho de produtividade deixa de ser diferencial e passa a ser padrão de mercado. É quando surge a “inflação de produtividade”, descrita no artigo.
Como as lideranças devem medir o retorno real da IA na produtividade?
Olhando não apenas para a velocidade de execução, mas para onde essa produtividade adicional está sendo direcionada. Se cria valor difícil de copiar ou apenas acompanha o mercado.
Quais erros travam o ganho de produtividade com inteligência artificial?
Tratar a IA como fonte automática de vantagem competitiva, sem repensar estratégia, execução e modelo de negócio.
O que realmente diferencia empresas na era da inteligência artificial?
A qualidade da decisão sobre onde aplicar a produtividade gerada pela IA, não a velocidade de adoção da tecnologia em si.