El Niño não é mais uma previsão distante. Órgãos públicos elaboraram uma nota técnica confirmando a probabilidade acima de 95% das condições de El Niño durante o segundo semestre. A previsão ainda indica que pode se estender até início de 2027. Em um país com dimensões como as do Brasil, os impactos aparecem de formas distintas em cada região.
O Sul enfrenta risco elevado de chuva excessiva e possibilidade de eventos climáticos extremos, como as enchentes que ocorreram nos últimos anos. Sudeste e Centro-Oeste podem ter aumento das temperaturas médias, enquanto o Nordeste pode ter secas mais severas, com riscos de queimadas descontroladas. Já o Norte pode enfrentar redução pluviométrica, comprometendo níveis de rios, produção agrícola, pesca e geração de energia, além do também iminente risco de incêndios florestais.
O mercado avalia que o foco deve estar menos no risco climático em si e mais na capacidade de adaptação das operações. Para a agroindústria, as mudanças climáticas tornam o ambiente mais incerto, o que exige uma gestão cada vez mais estruturada.
Pensar estrategicamente na condução das ações e adotar uma gestão eficiente são fatores essenciais para enfrentar esses desafios e fortalecer a resiliência das operações.
O diagnóstico sobre o impacto do El Niño na agroindústria
Fenômenos climáticos não podem ser impedidos, mas a sociedade, com as empresas incluídas, pode se posicionar melhor para enfrentá-los. As previsões recentes indicam que, mesmo com o início das chuvas entre agosto e outubro, a regularidade necessária para o plantio pode demorar a se consolidar. Por isso, o olhar da gestão deve ir além do campo e abranger toda a cadeia operacional, com os seguintes questionamentos:
1: Onde está meu risco geográfico e setorial?
Qual percentual da receita bruta depende de regiões críticas? Qual é a origem geográfica dos insumos agrícolas principais? Desenhar uma matriz simples (receita por região, exposição de insumos por origem) responde isso.
2: Qual é o impacto financeiro se cenários adversos se materializarem?
Se produtividade de insumos críticos cair ou custos subirem, qual o impacto em margens operacionais?
Na agroindústria, uma das principais questões é sensibilidade de receita à redução de produtividade nos principais cultivos, se há diversificação geográfica para compensar perda em uma região e se o fluxo de caixa suporta esse ciclo.
Da mesma forma, o custo de matérias-primas agrícolas como percentual do custo de bens vendidos e os insumos com risco de desabastecimento são os principais fatores a serem levantados. Além disso, é pensar como repassar aumentos de custo sem perder volume.
3: Como reduzir vulnerabilidade da empresa?
Identificada a exposição e o impacto potencial, a sequência natural é definir um plano de mitigação. Essas ações variam por setor, mas compartilham o princípio de reduzir exposição concentrada, diversificar fontes de risco e criar flexibilidade operacional.
Ações para proteger a agroindústria do impacto do El Niño
A palavra-chave na agroindústria será resiliência. O primeiro movimento é realizar uma auditoria de exposição. Mapear o portfólio de cultivos e terras por região com precisão e identificar quais estão mais vulneráveis, em quais regiões a produção está mais concentrada e se há alternativas viáveis em cada localidade.
A flexibilidade da cadeia de suprimento é uma boa escolha, o que demanda mapeamento dos principais insumos agrícolas para identificar:
- Qual a origem geográfica do insumo?
- Qual o percentual do custo de bens vendidos?
- Existe diversificação de fornecedor?
- Qual seria o impacto da falta de suprimento ou do aumento de preço?
Também deve haver atenção à volatilidade de suprimentos, investimentos em eficiência operacional com redução de desperdícios e otimização de processos. Decisões antecipadas e uma visão integrada da operação ajudam a preservar margens mesmo em um ambiente de maior volatilidade.
Planejar estrategicamente a condução das ações é peça-chave para que a agroindústria enfrente de forma eficiente os desafios e assegure sua resiliência mesmo diante das adversidades.
*Andre Paranhos, vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Agro e Indústria de Consumo