Ano eleitoral, mudanças climáticas, crises geopolíticas. São apenas três fatores entre muitos que tornam a conjuntura econômica uma incerteza no próximo ano. É consenso que 2027 será um ano de bifurcação. Isso porque as trajetórias das principais economias, desenvolvidas e emergentes, não seguirão uma única via, mas se distribuirão em cenários distintos com graus variados de risco e oportunidade.
Olhando para a realidade do Brasil, podemos vislumbrar três macrocenários que pedem uma atenção desde já das organizações:
- Estabilização com baixo crescimento;
- Estagflação;
- Recessão.
Há, no entanto, ações específicas para cada uma dessas realidades que as empresas devem considerar.
Quais são os possíveis cenários para 2027
Organizações que começarem a se preparar ainda em 2026 terão vantagem clara em cenários de incerteza e maior complexidade, sobretudo quando as perspectivas apontam de crescimento baixo a recessão como possibilidades para o próximo ano.
Cenário 1: Estabilização com baixo crescimento
Uma alternativa de cenário moderado para 2027 considera a inflação convergindo em relação à meta, com câmbio estabilizado em patamares próximos de R$ 5,00 e uma taxa Selic iniciando uma redução gradual a partir do segundo semestre, motivada por uma diminuição dos gastos públicos, mesmo que modesta. O crescimento do PIB fica entre 2,0% e 2,5%, e é possível vislumbrar melhora moderada na confiança de empresários e consumidores.
Cenário 2: Estagflação (crescimento fraco + inflação persistente)
Um cenário onde os gastos fiscais não se ajustam conforme necessário e as reformas esperadas enfrentam resistência política. Isso mantém o prêmio de risco do país elevado, com alguma saída de capital do Brasil, pressionando o câmbio em níveis acima de R$ 5,20.
A inflação converge lentamente, mas permanece acima de 4%. A Selic pode recuar levemente, mas permanecerá em patamares acima de 11%. O PIB varia para cima, mas não passaria de 1% a 1,5%. A confiança dos setores produtivos é volátil e há redução do consumo interno.
Cenário 3: Recessão
Impactos externos, como baixa liquidez internacional, queda no preço de commodities e eventual ruptura geopolítica com o agravamento dos conflitos atuais pelo mundo, levam a uma evasão acentuada de capital do país, com efeito principalmente no mercado de capitais e na capacidade de investimento das empresas.
Internamente, a manutenção dos níveis elevados de gastos do governo e a elevação de impostos reduzem a capacidade de compra da população, inviabilizam o crédito pela pressão sobre a Selic, que pode retomar patamares acima de 12%, e deprimem fortemente a demanda por bens e serviços. O PIB pode registrar números negativos, e o desemprego sobe acima de 10%.
Como preparar a organização desde já para enfrentar 2027
A antecipação das ações não requer investimentos massivos das empresas, mas disciplina em três frentes objetivas: estratégia testada em cenários, operações resilientes e decisão rápida com dados.
A primeira trata da clareza estratégica. Normalmente, as empresas já possuem uma direção definida, mas, em contextos de incerteza, é fundamental testar a proposta atual de valor em cada cenário vislumbrado para 2027. Isso poderá apontar uma necessidade preeminente de ajustes de rumo.
Qualquer que seja o resultado desta avaliação, conectar a estratégia a indicadores do negócio e da operação é a forma mais eficaz de medir como as coisas evoluirão dentro da empresa.
Outra recomendação é a elaboração de planos de contingência específicos, que enderecem situações em que a rentabilidade do negócio e a capacidade de geração de caixa fiquem em risco. Por fim, é importante construir uma narrativa única e objetiva da alta liderança em toda a empresa, para que a estrutura caminhe na direção pretendida, principalmente diante da necessidade de mudar a rota atual.
A segunda frente trata do estabelecimento de uma operação resiliente. Em momentos de incerteza nos cenários externos, conhecer quais alavancas do negócio podem ser movimentadas rapidamente, sem comprometer a competitividade, é fundamental. Portanto, dominar a estrutura de gastos da empresa e o valor agregado das entregas de cada processo permitirá identificar o que pode ser ajustado em 30, 90 ou 180 dias, caso necessário.
Para essas situações, recomenda-se estabelecer gatilhos de ajuste atrelados à receita, para disparar a revisão de despesas e custos caso sejam atingidos níveis críticos no faturamento. Acelerar projetos de automação de processos internos que geram mais valor para o negócio (ROI elevado) é uma boa prática para garantir a sustentabilidade dos resultados em múltiplos cenários.
Por fim, a terceira frente consiste em promover decisões mais ágeis e baseadas em dados. O tempo entre identificar um problema e executar uma decisão determina a capacidade de reagir das organizações, com um impacto mínimo. É necessário, inicialmente, construir as estruturas e os caminhos pelos quais os dados gerados na operação sejam capturados e disponibilizados às áreas aplicáveis, na forma de informação ou inteligência para a ação.
É preciso implantar um modelo de governança executiva ágil e resolutivo, com agenda clara e objetiva. Com o apoio da IA, esse modelo deve ser capaz de apresentar resultados, tendências e previsões dos principais indicadores do negócio em variados contextos e cenários, para garantir a estrutura necessária para decisões eficazes e acompanhar sua execução na operação.
Quais fatores são fundamentais na preparação das empresas para 2027
A gestão é o melhor caminho para resolver problemas e organizar os recursos das empresas para gerar mais retorno. Quando se soma tecnologia a esse processo, não apenas se acelera o tempo de execução e de alcance de resultados, mas também se confere maior eficácia ao processo.
Isso ocorre porque se traz a perspectiva do dado e do entendimento do comportamento dos processos de trabalho em nível desagregado e bastante profundo. O que resulta em decisões e ações mais precisas, que consomem menos recursos para serem executadas e são mais resilientes no tempo.
A chave do sucesso de qualquer planejamento é garantir que a empresa possua um sistema de gestão bem definido, com indicadores e métricas de valor posicionados e desdobrados na estrutura, além de uma governança que permita acompanhar os resultados e corrigir os rumos da organização. Tudo isso com o apoio das tecnologias, sobretudo de inteligência artificial.
Como capturar oportunidades de crescimento e competitividade
Se 2027 trouxer cenários adversos, a diferença entre organizações que desaparecem e as que prosperam está em ver a adversidade como ponto de partida para a transformação estratégica dos seus negócios. Historicamente, crises econômicas no país trazem alguns paradigmas que empresas, atentas e preparadas, conseguem explorar e ganhar competitividade.
Crises fazem com que algumas empresas encolham. Elas cortam custos indiscriminadamente, reduzem investimentos, perdem profissionais e entram em um modo defensivo no mercado. Nesse momento, surge a oportunidade de outras companhias expandirem e construírem vantagem competitiva real e duradoura. É possível capturar novos clientes, contratar talentos no mercado, substituir gastos por outros mais acessíveis e de qualidade, e investir a custos mais baixos, criando um ambiente que gera resultados no pós-crise ou melhoria de cenário.
Em tempos de crise, quando conhecemos o nível de resiliência da nossa estratégia, conseguimos ajustar mais rapidamente o foco para os projetos da nossa carteira de inovações que resolvem problemas reais e trazem um retorno de investimento (ROI) claro. Elimina-se, assim, a distração que os momentos de crescimento costumam tolerar, sem paralisar o processo de inovação necessário para garantir o futuro.
*Vinicius Brum é vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Saúde e Farma, Educação e Setor Público