maio . 2026 .

Entre velocidade e controle: o novo equilíbrio do risco no sistema financeiro

Com rápido avanço da tecnologia, C-level precisa equilibrar crescimento, risco e controle na tomada de decisão

Marina Borges*

Entre velocidade e controle: o novo equilíbrio do risco no sistema financeiro



Bancos e instituições financeiras ampliaram o uso de analytics, inteligência artificial e automação para acelerar concessões de crédito, personalizar ofertas e expandir receitas. Ao mesmo tempo que esse avanço elevou a capacidade de escala e eficiência operacional, veio acompanhado de alguns desafios para as lideranças. A agenda estratégica pede um equilíbrio mais rigoroso entre crescimento, risco e controle, tema central nas decisões do C-level. 

Uma pesquisa do Banco Central sobre o uso de IA no Sistema Financeiro Nacional (SFN), realizada entre fevereiro e março de 2025, indica uma adoção ainda desigual. Enquanto há ampla utilização entre os bancos de maior porte, entre cooperativas de crédito e instituições de pagamento (IPs) é baixa. Segundo os resultados divulgados no Relatório de Estabilidade Financeira, em novembro de 2025, a maturidade tecnológica, a capacidade de investimento e os desafios de governança parecem ser fatores decisivos na implementação. Em especial, a governança de IA apresenta lacunas relevantes, uma vez que precisa evoluir na criação de políticas e mecanismos de gestão de riscos. 

Por isso, um dos principais impasses nas empresas é quanto à qualidade das decisões, que depende diretamente da robustez dos modelos. Erros de calibração, uso de dados enviesados ou falta de atualização podem gerar consequências como aumento da inadimplência, distorções na precificação de risco e alocação ineficiente de capital. Além disso, a velocidade das decisões automatizadas reduz o tempo de reação a desvios, o que amplia o efeito de erros. 

Outro desafio está relacionado à governança. Modelos mais sofisticados, muitas vezes baseados em técnicas avançadas de IA, dificultam a explicabilidade das decisões. Isso cria entraves para auditoria, conformidade regulatória e gestão executiva. O risco, portanto, deve ser um tema transversal, integrado entre áreas de negócio, risco, tecnologia e compliance, com papéis e responsabilidades claramente definidos. 

Fortalecer a governança é proteger-se da vulnerabilidade 

Instituições que não fortalecem sua governança enfrentam maior vulnerabilidade, especialmente em cenários de volatilidade econômica e mudanças no comportamento dos clientes. Ter disciplina na gestão de modelos e clareza na tomada de decisão ajuda as empresas a capturar valor com mais segurança. 

Voltando à questão central do C-level: como sustentar o equilíbrio entre crescimento e controle? A primeira solução é estabelecer uma governança de modelos, com processos estruturados de validação, monitoramento contínuo e revisão periódica. A segunda é a definição clara de apetite a risco, traduzida em limites objetivos e indicadores acompanhados pela alta liderança.  

A terceira é a integração entre estratégia e risco, garantindo que decisões de expansão considerem impactos na qualidade da carteira e na sustentabilidade dos resultados. Um quarto fator é a capacidade de resposta, que envolve ciclos curtos de monitoramento, com indicadores que permitem identificar rapidamente desvios e ajustar modelos ou políticas de crédito. Esse movimento reduz a exposição a perdas e aumenta a resiliência em cenários de volatilidade. Ao mesmo tempo, demanda disciplina na execução e investimento contínuo em dados, tecnologia e capacitação das equipes. 

O avanço da automação tende a aprofundar a dependência de modelos e ampliar a velocidade das decisões. Por isso, o equilíbrio de crescimento com controle, transformando risco em uma alavanca estratégica é fundamental. As companhias devem investir em uma governança robusta, com clareza na tomada de decisão e disciplina na execução. E a liderança precisa tratar essa agenda como prioritária e fortalecer seus mecanismos de controle sem comprometer a velocidade de resposta. 

*Marina Borges é vice-presidente de Operações da Falconi

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