Provar o retorno sobre investimento (ROI) dos projetos com inteligência artificial (IA) não é, ainda, a realidade de muitas empresas. A Gartner aponta que apenas 28% dos casos de uso de IA cumprem plenamente as expectativas de ROI, enquanto 20% fracassam completamente.
A maioria dos casos que observamos é a falta de gestão antes da tecnologia. As empresas escolhem as ferramentas e aprovam o orçamento. Na hora de mostrar o resultado, não é o que foi prometido no discurso.
A mensagem a se passar é simples. IA não é um projeto de tecnologia que a área técnica implementa e a empresa colhe os frutos. É um projeto de gestão, que exige decisões de processo, dados, responsabilidade e cultura.
Oito problemas nas empresas que exigem gestão antes de tecnologia
Antes de adotar IA, as empresas precisam resolver desafios de gestão como dados dispersos, processos mal desenhados e falta de clareza quanto aos problemas de negócio. Observo que os entraves mais comuns na geração de valor real são:
- Dados espalhados. Muitas organizações com as quais falo reconhecem que seus dados não estão prontos para sustentar IA em produção. São diversos sistemas em uso, que não conversam entre si e não convergem em uma fonte única de verdade.
- Processos não redesenhados. Essa situação ocorre quando tecnologia acelera uma tarefa isolada, mas o processo ao redor continua com redundâncias e retrabalho. O ganho de velocidade se perde no fluxo, porque a empresa automatizou apenas uma parte sem pensar no todo.
- Responsáveis indefinidos. Quando um agente de IA toma uma decisão equivocada, quem responde por ela? Quem tem autoridade para desligá-lo em produção? Sem essa clareza, a organização hesita, porque ninguém quer assinar embaixo do risco.
- Problema mal formulado. Muitas iniciativas nascem da tecnologia disponível e não da dor real da empresa. O resultado são soluções sofisticadas que não viram decisões melhores. E os reais problemas do negócio permanecem intocados.
- Cultura de experimentação sem critério. Quando o custo de testar cai, o número de experimentos cresce e, junto dele, as iniciativas irrelevantes. Sem critério claro para priorizar e para abandonar o que não funciona, pouco valor adicional será entregue.
- Histórico de decisões não documentado. Parte do conhecimento gerado na interação com IA permanece tácito, concentrado em quem conduziu aquela interação. Isso reduz a capacidade de reproduzir o resultado e de escalar a solução para outras áreas.
- Integração fraca com os fluxos de trabalho. Entre as empresas que efetivamente colocaram IA em produção, um dos fatores decisivos de sucesso foi a integração da tecnologia aos fluxos existentes, segundo a Gartner.
- Capacitação do time. Treinamento apenas na ferramenta é insuficiente. Empresas precisam investir na mudança de cultura e na capacitação sobre o processo completo.
Como implementar IA sem criar um problema de gestão
Um grande erro é comprar a solução e só depois resolver a gestão. Por exemplo, as organizações que usam múltiplos sistemas e têm silos de informações correm o risco de escalar desordem e não resultados. Por isso, a gestão vem antes da tecnologia.
Diagnóstico de prontidão é o primeiro passo. Antes de qualquer piloto, é mapear se os dados têm dono definido e se existe uma única versão da verdade para as informações.
Em seguida, deve-se escolher o problema certo. O ponto de partida é uma dor de negócio mensurável, como redução de ruptura de estoque ou aumento de conversão comercial, não a tecnologia.
Antes de qualquer linha de código, é preciso estabelecer governança. Significa definir quem aprova, quem responde por decisões automatizadas e qual o critério para encerrar um piloto.
Com isso, é o momento de redesenhar processos. Revisar o fluxo de trabalho completo ao redor da tarefa que será automatizada, garantindo que o ganho de velocidade se traduza em eficiência de ponta a ponta. Por fim, monitorar a IA. Medir adoção, valor entregue e qualidade das decisões, com revisões periódicas que permitam ajustar ou encerrar iniciativas com agilidade.
Caso prático de gestão antes do uso de tecnologia
Em um projeto de Construção Civil, a companhia tinha o grande desafio de capital imobilizado em estoque em volume superior ao necessário. Antes de implementar uma solução, foi preciso definir o ideal a ser armazenada e o nível se serviço desejado para minimizar backorders, quando um pedido é vendido mesmo sem ainda tê-lo no estoque, ao mesmo tempo em que o atendimento aos pedidos era garantido.
No escopo técnico, preparamos os dados provenientes do SAP e de outros sistemas para, então, desenvolver uma interface e modelo de otimização de inventário. Foi criado um modelo baseado nos inputs de um modelo preditivo de demanda, que também desenvolvemos.
Esse exemplo ilustra as duas visões: os dados tinham origens diversas e foram unificados. Em seguida, a interface foi criada, o modelo construído, validado e só então implementado. Para essa companhia, os resultados foram bastante significativos. Houve redução de R$13 milhões de inventário e de 6,10% do backorder.
O que muda quando a gestão vem antes da tecnologia
O passo a passo não elimina a complexidade da IA. Por outro lado, a ferramenta se torna uma vantagem competitiva que permite a empresa responder precisamente a perguntas que muitas ainda hesitam em enfrentar, como quem é dono de cada decisão automatizada e qual o teto de custo operacional aceitável.
A tecnologia continuará evoluindo em ritmo acelerado. Porém, só quando se tornar uma pauta de gestão, com dados, processos e responsáveis claramente definidos, a IA começará a gerar resultado consistente e sustentável.
*Breno Barros é vice-presidente de Soluções Digitais e CTO da Falconi.