Acompanho de perto o movimento de investimento industrial no Brasil e um número recente me chamou atenção. Em 2025, 74% das empresas compraram máquinas e equipamentos, segundo a Sondagem Especial da Confederação Nacional da Indústria. Apenas 5% desse grupo teve como foco real a automatização da produção. A maioria, 72%, priorizou mecanização do processo produtivo. Outros 9% avançaram em robotização.
Esse hiato entre renovar e modernizar diz muito sobre como a indústria brasileira ainda encara a tecnologia. Empresas compram tecnologia sem revisar o processo que ela deveria melhorar. O resultado é a automatização da própria ineficiência. Em vez de eliminar o retrabalho, instala-se um sistema que o executa mais rápido.
A raiz desse problema tem nome, falta governança de CAPEX. Faltam critérios claros de priorização e disciplina para recusar iniciativas que ainda não fazem sentido para a operação. Muitas empresas investem por pressão de mercado, porque o concorrente comprou determinado equipamento ou porque o tema está em alta nos fóruns de indústria 4.0. Poucas investem porque mapearam, com dados, uma oportunidade real de ganho operacional.
Os números do IBGE reforçam esse retrato. Segundo a Pesquisa Pintec, 59,2% das empresas industriais utilizam apenas uma ou duas tecnologias digitais. É um sinal de que a maturidade digital do setor ainda caminha devagar, mesmo com o volume de investimento em máquinas crescendo.
Defendo que cada projeto de automação precisa nascer de uma tese de retorno. Estimativas consistentes de ROI e indicadores que permitam medir a captura de valor deveriam ser pré-requisito, não uma etapa posterior feita para justificar a compra. A automação faz sentido quando o processo já foi simplificado. Ela não deveria servir para apressar a substituição de uma reflexão que ainda não foi feita. Sem essa estrutura, o investimento vira aposta, e a fatura chega de qualquer forma.
Por isso, aponto cinco caminhos que considero fundamentais para que a indústria brasileira consiga converter investimento em máquinas em competitividade real.
- Fazer um diagnóstico rigoroso dos processos antes de qualquer investimento tecnológico.
- Alinhar cada projeto de automação aos objetivos estratégicos do negócio.
- Estabelecer governança clara de CAPEX, com critérios de priorização e disciplina para rejeitar iniciativas sem fundamentação.
- Estruturar equipes e processos antes de implementar a tecnologia.
- Medir resultados efetivos através de indicadores de ROI e captura de valor.
A transformação digital, no fundo, é uma mudança de mentalidade dentro das empresas. Quando falta governança, o que se tem são apenas máquinas novas executando processos antigos.
*André Chaves é vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Indústria de Base e Bens de Capital