set . 2026 .

Máquinas novas, processos antigos: por que a indústria brasileira renova sem automatizar

CNI aponta que 72% das empresas priorizam mecanização, mas apenas 5% avançam em automatização real

André Chaves*

Máquinas novas, processos antigos: por que a indústria brasileira renova sem automatizar


Acompanho de perto o movimento de investimento industrial no Brasil e um número recente me chamou atenção. Em 2025, 74% das empresas compraram máquinas e equipamentos, segundo a Sondagem Especial da Confederação Nacional da Indústria. Apenas 5% desse grupo teve como foco real a automatização da produção. A maioria, 72%, priorizou mecanização do processo produtivo. Outros 9% avançaram em robotização. 

Esse hiato entre renovar e modernizar diz muito sobre como a indústria brasileira ainda encara a tecnologia. Empresas compram tecnologia sem revisar o processo que ela deveria melhorar. O resultado é a automatização da própria ineficiência. Em vez de eliminar o retrabalho, instala-se um sistema que o executa mais rápido. 

A raiz desse problema tem nome, falta governança de CAPEX. Faltam critérios claros de priorização e disciplina para recusar iniciativas que ainda não fazem sentido para a operação. Muitas empresas investem por pressão de mercado, porque o concorrente comprou determinado equipamento ou porque o tema está em alta nos fóruns de indústria 4.0. Poucas investem porque mapearam, com dados, uma oportunidade real de ganho operacional. 

Os números do IBGE reforçam esse retrato. Segundo a Pesquisa Pintec, 59,2% das empresas industriais utilizam apenas uma ou duas tecnologias digitais. É um sinal de que a maturidade digital do setor ainda caminha devagar, mesmo com o volume de investimento em máquinas crescendo. 

Defendo que cada projeto de automação precisa nascer de uma tese de retorno. Estimativas consistentes de ROI e indicadores que permitam medir a captura de valor deveriam ser pré-requisito, não uma etapa posterior feita para justificar a compra. A automação faz sentido quando o processo já foi simplificado. Ela não deveria servir para apressar a substituição de uma reflexão que ainda não foi feita. Sem essa estrutura, o investimento vira aposta, e a fatura chega de qualquer forma. 

Por isso, aponto cinco caminhos que considero fundamentais para que a indústria brasileira consiga converter investimento em máquinas em competitividade real. 

  1. Fazer um diagnóstico rigoroso dos processos antes de qualquer investimento tecnológico.
  2. Alinhar cada projeto de automação aos objetivos estratégicos do negócio.
  3. Estabelecer governança clara de CAPEX, com critérios de priorização e disciplina para rejeitar iniciativas sem fundamentação.
  4. Estruturar equipes e processos antes de implementar a tecnologia.
  5. Medir resultados efetivos através de indicadores de ROI e captura de valor.

A transformação digital, no fundo, é uma mudança de mentalidade dentro das empresas. Quando falta governança, o que se tem são apenas máquinas novas executando processos antigos. 

*André Chaves é vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Indústria de Base e Bens de Capital


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