Quando uma empresa investe massivamente em inteligência artificial (IA) e negligencia as pessoas, o fracasso é quase previsível, e a razão é simples. Máquinas sem julgamento humano perpetuam erros em escala. Ignorar esse fato é colocar em risco o potencial de ganho de produtividade com IA nas empresas, possível quando combinada ao discernimento, à experiência e à capacidade de decisão das pessoas.
Segundo o Technology and Innovation Report 2025, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a IA pode afetar 40% dos trabalhos em todo o mundo, mas nas economias avançadas, 27% dos trabalhos podem ser aprimorados. Além disso, o estudo aponta que o impacto da IA depende de uma combinação de automação, ampliação de capacidades e criação de empregos.
Fazer a distinção correta entre automação simples e amplificação é a chave para definir o sucesso e o fracasso da transformação digital nas empresas. A visão de que a IA é a solução para reduzir custos operacionais substituindo pessoas é um mito.
Inclusive, ter esse pensamento é ignorar um fato que já é destaque nas discussões sobre esse tema. Tecnologia sem processos maduros, governança e equipes preparadas não gera produtividade. Ao contrário, gera frustração, rejeição e subutilização de investimento.
E isso é diagnosticado com frequência em projetos: empresas implementam ferramentas muito sofisticadas em operações complexas e o sistema não é explorado em todo o seu potencial. O time não é capacitado para usá-lo e, com o passar dos meses, há a descontinuação do software.
IA não substitui pessoas, mas sim amplifica os resultados
Exemplos concretos de amplificação envolvem a redução de trabalho manual e repetitivo para liberar o foco para atividades mais estratégicas.
Um analista de dados amplificado por IA tem o trabalho potencializado quando a máquina faz o trabalho repetitivo e o profissional se concentra em investigação, validação e decisão. Um gerente de operação não é substituído pela IA, mas tem a capacidade de aprovação ampliada com a ajuda da máquina detectando anomalias.
Essa amplificação tem efeitos em cascata. Velocidade aumenta e a qualidade melhora. Por consequência, a confiança de stakeholders cresce porque decisões críticas não são delegadas diretamente às máquinas, mas ao binômio “pessoas-IA”.
Outra grande vantagem é que as pessoas observam resultados, questionam e identificam padrões que máquinas não veem. Dessa forma, cria-se um ciclo de feedback contínuo que impulsiona inovação dentro de processos operacionais.
Pré-requisitos para aumentar a produtividade com IA
A implementação de ferramentas de IA precisa de maturidade organizacional. O primeiro passo é estruturar e mapear os processos e ter em mente que não automatizamos ou amplificamos caos. Se o fluxo é truncado, tem muitas etapas manuais e não documentadas, a IA só vai perpetuar essa confusão em escala.
O segundo passo é que os dados precisam estar organizados porque essa é a base. Se a qualidade da entrada é baixa, a entrega será no mesmo padrão. Por isso, a governança de dados é tão importante.
Em terceiro, as pessoas devem ser preparadas simultaneamente. Treinamento apenas nas ferramentas é insuficiente, é preciso investir em uma mudança de pensamento e de cultura. Novos papéis precisam estar claros e as responsabilidades devem ser redefinidas.
O quarto é um ponto imprescindível. A governança deve estar estruturada. Quem aprova outputs de IA? Como acompanhamos qualidade? Qual é a cadência de revisão? Riscos de conformidade e vieses devem estar mapeados e mitigados, assim como responsáveis e responsabilidades definidos.
Por fim, nem toda tecnologia aplica-se a todas as empresas. Essa escolha deve ser criteriosa. Alguns problemas vão exigir IA generativa, outros IA prescritiva ou processamento de dados. Tudo vai depender do contexto e das necessidades da companhia.
Os erros que reduzem a produtividade com IA
Implementar inteligência artificial com processos imaturos é antecipar resultados ruins. Isso acontece ao escolher ferramentas sofisticadas para problemas simples. Ao capacitar apenas para o uso da tecnologia sem construir uma dinâmica humana. Ao esperar que o retorno sobre o investimento (ROI) apareça em três meses. Ao não estabelecer uma governança clara de processos, papéis e responsabilidades.
Destaco, ainda, um grande erro com implantação de IA que já observei: não envolver as pessoas que executam o trabalho no desenho da solução. Unir pessoas e IA é uma vantagem que já está disponível e tem a capacidade de amplificação inteligente das equipes, resultando em mais produtividade e retorno mais consistente para negócios.
*Marcos Silva é diretor de Tecnologia da Falconi